EXAUSTO mas muito satisfeito. É assim que se sente Pramoedya Ananta Toer (pronúncia: Pramudya Ananta Tur) após três meses de viagens pela Costa Leste e Oeste dos Estados Unidos, Canadá, Holanda, Alemanha e França, com a agenda sempre cheia de apresentações de livros, congressos literários e iniciativas de carácter mais político. Pramoedya - Pram para os amigos - é o mais famoso escritor da Indonésia, e, a seguir a Xanana Gusmão, a mais conhecida vítima do regime de Suharto. Passou largos anos na prisão da Ilha de Buru (Molucas) e viveu mais de uma década sob regime de prisão domiciliária.
O EXPRESSO conversou com Pramoedya em Paris, num hotel ao pé do Odéon. Uma conversa misturada com o cheiro dos cigarros de cravinho («kretek») que o escritor acendeu um após outro, aos gritos - Pramoedya é meio surdo em resultado dum golpe na cabeça que lhe foi desferido por um soldado indonésio em 1965 - num «potpourri» de bahasa (língua) indonésia, inglês e francês.
EXPRESSO - Após tantos anos de prisão domiciliária, como é que conseguiu fazer esta viagem pela América e Europa?
PRAMOEDYA ANANTA TOER - Em primeiro lugar, esta viagem deve-se ao triunfo dos estudantes e dos jovens no ano passado. Em segundo lugar, representa uma vitória pessoal contra o regime militarista e fascista indonésio, porque sei que as autoridades não têm a coragem de me impedir de viajar. Finalmente, a digressão originou num convite feito pelos Estados Unidos, e a Indonésia tem medo dos Estados Unidos.
EXP. - Os seus livros continuam oficialmente proibidos na Indonésia. Prevê um fim rápido da censura?
P.A.T. - Não espero nada do actual regime. A proibição dos meus livros até representa um certo respeito em relação à minha obra e à minha pessoa.
EXP. - Na sua opinião, porque é que os seus livros foram banidos?
P.A.T. - É melhor perguntar isso às pessoas que os proibiram...
EXP. - Sente-se mais livre em Jacarta do que antigamente?
P.A.T. - Para mim, a liberdade é algo que se pode conquistar sozinho, é algo que se aprende a criar. Sentir-me livre não depende das circunstâncias exteriores.
EXP. - Como vê os acontecimentos do último ano e, nomeadamente, o papel dos estudantes?
P.A.T. - Os estudantes fizeram um progresso enorme; informaram e educaram o povo. Graças aos estudantes, o povo agora conhece os seus direitos e começou a reivindicá-los, como, por exemplo, na questão da confiscação ilegal das terras.
EXP. - Qual é a sua opinião sobre o referendo em Timor-Leste?

«Filho de Todas as Nações»
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P.A.T. - Aquilo que aconteceu em Timor-Leste em 1975, com a ocupação e a posterior repressão, não é nada menos que uma traição aos princípios dos fundadores da Indonésia moderna e independente. Sukarno, o pai da pátria, nunca considerou Timor-Leste como parte integrante da Indonésia; para ele, o território da Indonésia correspondia exactamente à colónia holandesa, «de Sabang a Merauke». Assim, depois de 1975, a Indonésia tornou-se duma antiga colónia numa potência colonial, o que foi não só um acto estúpido, como também um acto desumano.
EXP. - Se a autonomia for rejeitada no referendo, e Timor-Leste se tornar num país independente, o que vai acontecer com os indonésios que emigraram para lá, no âmbito da política de transmigração?
P.A.T. - Isso é um problema que se pode discutir, que se pode resolver. O único caminho é o da negociação.
EXP. - As milícias pró-integração parece não quererem negociar...
P.A.T. - É mais um exemplo da estupidez e hipocrisia da questão. Estão a matar em todo o lado, mas é com armas fornecidas pelas potências do Norte!
EXP. - Conhece pessoalmente alguns líderes da resistência timorense?
P.A.T. - Encontrei José Ramos Horta durante a minha visita a Nova Iorque, onde tivemos um encontro muito breve. Não conheço pessoalmente Xanana Gusmão, mas acho que tem de ser libertado imediatamente. Ele continua na prisão porque os militares querem mostrar o seu poder pelo esmagamento do indivíduo. É isso que está a acontecer com Xanana Gusmão, e falo por experiência própria, porque eu também passei por aquilo.
EXP. - Falou-se muito na possibilidade da desintegração da Indonésia, por causa dos distúrbios em Aceh, no Bornéu e nas Ilhas Maluku. Acha que este perigo realmente existe?

«Esta Terra dos Homens»: tal como «Filho de Todas as Nações», é um dos volumes do «Quarteto de Buru», escrito para os companheiros de prisão da Ilha de Buru
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P.A.T. - A ameaça da desintegração, a meu ver, demonstra claramente que o regime não aprendeu as lições da história e que não tem uma ideia coerente do próprio país. Para mim, é paradoxal que o país nunca tenha criado uma marinha: durante a época colonial, os holandeses pouco investiram na marinha, e depois da independência, e particularmente após o golpe de Estado de 1965, as forças terrestres foram consideradas mais importantes que as forças navais. Isto teve por efeito que o mar, em vez de nos unir, tornou-se numa barreira e, no entanto, somos um país de milhares de ilhas... Outra herança da época colonial é o papel central de Java. Os holandeses utilizaram os javaneses para dominar o resto do arquipélago, e o actual regime simplesmente continuou essa política.
EXP. - Apesar da diversidade regional, existe uma identidade nacional indonésia?
P.A.T. - Pode-se dizer que os indonésios se sentiram unidos sob Sukarno, mas esse sentimento desapareceu com Suharto. Foram os holandeses que realizaram a unificação administrativa da Indonésia, mas só Sukarno conseguiu a unificação política.
EXP. - O senhor participa activamente numa associação de direitos humanos que luta pela investigação dos massacres de 1965-1966. Qual é a importância dessa investigação para a vida política e social da Indonésia?
P.A.T. - Os massacres foram o resultado duma conspiração internacional, com o objectivo de abrir o país ao investimento e capital estrangeiros. De facto, a indiferença da comunidade internacional em relação aos massacres indica alguma cumplicidade; só assim se pode explicar que nenhuma comissão internacional de inquérito se tivesse ocupado, na altura, do ocorrido. Doutro modo, teria sido investigado imediatamente. Por isso, somos nós próprios que teremos de realizar essa investigação. Mas vai ser difícil. Não estou muito satisfeito com a forma como se prepararam as eleições de Junho, porque a questão dos massacres não foi abordada, o que se pode interpretar como uma forma de legitimar as atrocidades cometidas sob Suharto. Os partidos que participaram tornaram-se, assim, em extensões do antigo regime.
EXP. - Mesmo o PDI de Megawati Sukarnoputri?

«Pegadas»
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P.A.T. - Mais ainda o partido de Megawati, porque as pessoas que foram assassinadas em 1965 eram amigos do pai dela (Sukarno), mas ela nunca disse nada a esse respeito. Como deputada no Parlamento, viveu da Nova Ordem de Suharto, aceitando o papel de figurante. Não a respeito e não acredito nela.
EXP. - Até que ponto é que se pode considerar o PDI de Megawati como sucessor do Partai Nasional Indonesia (PNI), o partido de Sukarno?
P.A.T. - Não lhe sei responder essa pergunta, mas o que é certo é que o PNI foi o partido da luta pela independência, e que foi Sukarno quem advertiu os indonésios para o perigo do neocolonialismo. O regime de Suharto abriu o país para esse neocolonialismo.
EXP. - Segundo alguns observadores políticos, terá sido o próprio Sukarno a abrir o caminho para o autoritarismo, nomeadamente pela sua criação, em finais dos anos 50, dum regime presidencialista que deixou o Parlamento isolado...
P.A.T. - É uma visão tipicamente ocidental, porque foram os ocidentais que desejaram o fim de Sukarno. Houve sete tentativas de assassinar Sukarno, todas com o apoio do Ocidente, que felizmente falharam. Os americanos e ingleses fomentaram vários motins em Samatra durante os anos 50, com o objectivo de derrubar Sukarno. Estimo muito a memória de Sukarno, e estou aqui a interpretar fielmente o seu pensamento político.
EXP. - Acha que um dia se vai saber a verdade sobre o golpe de Estado de 1965?
P.A.T. - Só quando os arquivos ingleses sobre este período abrirem é que se pode saber toda a verdade. O golpe de 1965 resulta duma conspiração entre o Governo inglês e uma parte do exército indonésio.
EXP. - Qual é o papel da literatura na sociedade?

«A Casa das Paredes de Vidro», sobre o jornalista javanês Minke, que se revolta contra o poder colonial dos holandeses
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P.A.T. - Tem um papel muito importante, particularmente para uma jovem nação como a Indonésia. A literatura tem de participar na construção da nação, para criar uma moral própria, uma moral que permite aos seus membros tornarem-se homens livres.
EXP. - Isto implica uma ruptura radical com a literatura tradicional javanesa, uma literatura de corte, associada com o feudalismo?
P.A.T. - Acho que não; a questão de escrever ou ter inspiração para escrever é uma questão pessoal para cada escritor. Contudo, para ser um escritor indonésio, é preciso escrever em bahasa indonésia em vez de optar por uma das línguas regionais como o javanês, senão não é literatura indonésia mas literatura javanesa.
EXP. - É por isso que decidiu escrever em bahasa indonésia em vez de javanês, a língua que se falava na casa dos seus pais?
P.A.T. - Exactamente.
EXP. - O que é que está a escrever actualmente?
P.A.T. - Durante esta digressão, praticamente só escrevi com os meus lábios. Com uma excepção: aceitei um convite da revista «Time» para escrever um artigo de opinião sobre Suharto, no número especial dedicado à corrupção que envolve o antigo ditador e a sua família. Aceitei porque acho que Suharto tem de ser julgado. Ele nem sequer pediu desculpa pelo facto de terem sido assassinadas tantas pessoas sob sua responsabilidade. Não reconheceu os seus erros e, desta maneira, está a desafiar os indonésios.
EXP. - Mas sente ainda a paixão pela escrita?
P.A.T. - Sinto, mas é-me difícil escrever. É algo muito complicado. Tem a ver com a situação política actual; se começasse a escrever sobre isso, já não seria literatura, mas jornalismo. A reflexão é a minha paixão, por isso, gostaria de escrever sobre a questão de como a Indonésia se tornou no país que é na actualidade.
EXP. - O facto de ser um ex-prisioneiro político não implica uma certa marginalização na sociedade?
P.A.T. - Não, de modo nenhum. Um escritor só tem de se confrontar consigo mesmo, e é isso que faço.
EXP. - Durante os anos de prisão, nunca desesperou?
P.A.T. - Não desesperei; estava sempre cheio de ardor porque sei que a opressão e a injustiça existem para serem confrontadas e vencidas.
EXP. - Vai realizar mais viagens ao estrangeiro?
P.A.T. - Já recebi convites para visitar a Alemanha, a Finlândia, o Japão e as Filipinas.
EXP. - E Portugal?
P.A.T. - Em tempos, recebi um convite do Parlamento português para visitar Portugal, mas naquela altura ainda não me era possível viajar para o estrangeiro. Agora já poderia ir. Muito, todavia, depende da minha família: tenho muitos filhos e netos, que precisam do meu apoio.
Texto de SIMON KUIN, enviado a Paris
Fotografias de VINCENT VALAS